0 years away? Os 10 primeiros dias de Bruno Caboclo no Grizzlies

Por Vinícius Guimarães

Quando Bruno Caboclo foi draftado na 20ª posição do Draft de 2014, Fran Fraschilla, especialista em prospectos internacionais, proferiu a famosa frase “he’s two years away from being two years away”. Traduzindo para português, “faltam dois anos para faltarem dois anos para ele estar pronto para a NBA”, ou seja, o brasileiro estava muito cru para entrar na liga e jogar logo de cara.

O Raptors escolheu Caboclo pelo seu potencial físico e não para impactar imediadamente o time no primeiro ano. A franquia sabia que teria que ter paciência. Porém, em quatro anos de Toronto, o ala nunca conseguiu espaço na rotação, passando a maior parte desse tempo na G-League.

Em agosto de 2017, Caboclo teve a oportunidade de provar seu basquete na Copa América, pela seleção brasileira. Seria a primeira vez que ele jogaria uma competição de alto nível com uma boa minutagem. Em vez de dar tudo de si para mostrar aos times da NBA que tinha talento para estar na liga, Caboclo protagonizou um dos maiores vexames da história do basquete nacional ao se recusar a entrar em quadra na segunda partida do torneio.

Seis meses depois, o Raptors perdeu a paciência. O “Brazilian KD” foi trocado para o Kings e ficou sem contrato no final da temporada. Ele participou do training camp do Rockets na offseason, não conseguiu vaga no time principal e desceu para a equipe filiada à franquia na G-League, o Rio Grande Valley Vipers.

A essa altura, muitos (inclusive o autor desse texto) deixaram de acreditar que Bruno Caboclo poderia ser um jogador de NBA.

No seu novo time na liga de desenvolvimento, Caboclo jogou principalmente na 4 e não encontrou dificuldades na defesa por conta de sua envergadura. No ataque, teve bastante espaço para arremessar de fora e soube usar sua velocidade para pontuar contra jogadores mais pesados e menos ágeis. O brasileiro fez 16,4 pontos, 7,3 rebotes e 3,1 tocos por jogo em 28 partidas, aproveitando 51,1% dos arremessos de quadra e 43,3% nas bolas de três.

Seu ápice foi em janeiro. Ele foi o segundo jogador com mais tocos da liga, com 3,7 por jogo, e teve o 10º melhor aproveitamento das bolas de três no mês, com 45,8% (GP≥5, 3PA≥5).

Um dia após Caboclo ser eleito o melhor jogador da terceira semana de 2019, Woj informou que ele assinaria um contrato de 10 dias com o Memphis Grizzlies, o que foi oficializado em 24/01.

O Grizzlies possui uma identidade defensiva muito forte há anos, é um dos piores times da NBA nas bolas de três e apresentava um buraco gigante nas alas, por conta de lesões. Dillon Brooks, Garrett Temple, Kyle Anderson e Omri Casspi desfalcariam a equipe nesses 10 dias. Ou seja, Memphis não só tem um jogo que combina com as características de Caboclo como também precisava de alguém para completar a rotação na posição 3. Não é à toa que ele teve quatro jogos com mais de 20 minutos em quadra e chegou a fechar algumas partidas ao lado dos titulares.

Foi na defesa que Caboclo chamou mais atenção em seus jogos no Grizzlies e a posse acima resume bem o porquê disso. Ele evitou a infiltração do Wiggins depois do bloqueio, marcou o Dieng na troca e dobrou no Saric nos último segundos, rejeitando o arremesso no final.

Esse toco é apenas um de muitos exemplos de como ele tem usado bem a sua enorme envergadura (2,31m) para dificultar os chutes dos adversários:

Fora da bola, Caboclo mostrou bons instintos defensivos. Ele tem bom senso de proteção de aro e sabe escolher os momentos certos para realizar ajudas:

Marcando alas ágeis, como Andrew Wiggins, Kevin Knox e Bojan Bogdanović, a falta de velocidade lateral de Caboclo foi exposta. O brasileiro teve dificuldade para defender o jogo de 1 contra 1 e lutar contra bloqueios, coisas que não eram muito comuns para ele na G-League.

Do outro lado da quadra, ele conseguiu provar que tem um bom arremesso de longa distância (e muita confiança também), sendo decisivo com bolas de fora nos minutos finais contra o Pacers e o Wolves.

“Quando você vê alguém chutando assim, com confiança, sem medo, isso ajuda o ataque a respirar e faz com que a defesa se preocupe com outro jogador” Marc Gasol sobre Caboclo

Infelizmente, seu jogo ofensivo se limitou aos tiros do perímetro. Ele não teve sucesso nas infiltrações, criação de jogadas e nem contra-ataques.

O baixo aproveitamento da linha de três (20% nos seis primeiros jogos) deve-se a sua seleção de arremessos, que tem sido ruim e é agravada pelo fato de não conseguir colocar a bola no chão. Caboclo claramente não se sente confortável em driblar, seja para criar espaço ante seu marcador como para atacar a defesa no pick-and-roll. Isso acaba gerando chutes forçados:

Nos últimos dois jogos, Caboclo foi acionado no poste baixo para explorar mismatches contra armadores e alas mais baixos. Ele ainda não conseguiu pontuar a partir dessas situações, mas esse jogo próximo à cesta era um de seus pontos fortes na G-League. Vale a pena ficar de olho para ver como isso traduz para a NBA.

O Grizzlies anunciou neste domingo (04) que renovou o contrato de Bruno Caboclo por mais 10 dias. Ao término desse vínculo, a franquia terá que decidir se vai firmar um contrato maior com o jogador ou se o liberará. Com uma possível reconstrução a caminho, Memphis tem em mãos um jovem de 23 anos, fisicamente monstruoso, que impacta a defesa de diversas maneiras e também espaça a quadra. Independente do que aconteça, o saldo dessa passagem do Caboclo pela NBA foi extremamente positivo.

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